quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Lei de Sociedade

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo VII - Lei  de Sociedade


Necessidade da vida social – Vida de isolamento. Voto de silêncio – Laços de família

Necessidade da vida social

766 A vida social é uma obrigação natural?
– Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus deu-lhe a palavra e todas as demais faculdades necessárias ao relacionamento.

767 O isolamento absoluto é contrário à lei natural?
– Sim, uma vez que os homens procuram por instinto a sociedade, para que todos possam concorrer para o progresso ao se ajudarem mutuamente.

768 O homem, ao procurar viver em sociedade, apenas obedece a um sentimento pessoal, ou há um objetivo providencial mais geral?
– O homem deve progredir, mas não pode fazer isso sozinho porque não dispõe de todas as faculdades; eis por que precisa se relacionar com outros homens. No isolamento, se embrutece e se enfraquece.

  • Nenhum homem possui todos os conhecimentos. Pelas relações sociais é que se completam uns aos outros para assegurar seu bem estar e progredir: é por isso que, tendo necessidade uns dos outros, são feitos para viver em sociedade e não isolados.


Vida de isolamento. Voto de silêncio

769 Compreende-se, como princípio geral, que a vida social faça parte na natureza; mas, como todos os gostos estão também na natureza, por que o gosto pelo isolamento absoluto seria condenável se o homem encontra nele sua satisfação?
– Satisfação de egoísta. Há também homens que encontram satisfação em se embriagar; vós os aprovais? Deus não pode ter por agradável uma vida em que o homem se condena a não ser útil a ninguém.

770 O que pensar dos homens que escolhem viver em reclusão absoluta para fugir do contato nocivo do mundo?
– Duplo egoísmo.
770 a Mas se esse retiro tiver por objetivo uma expiação ao lhe impor uma privação pesarosa, não é meritório?
– Fazer antes o bem do que o mal é a melhor expiação. Ao evitarem um mal, caem em outro, uma vez que se esquecem da lei de amor e de caridade.

771 O que pensar daqueles que fogem do mundo para se devotar ao alívio dos sofredores?
– Esses se elevam ao se rebaixarem. Têm duplo mérito por se colocarem acima dos prazeres materiais e por fazerem o bem cumprindo a lei do trabalho.
771 a E aqueles que procuram no retiro a tranqüilidade de que precisam para alguns trabalhos?
– Esse não é absolutamente um retiro egoísta. Eles não se isolam da sociedade, uma vez que trabalham para ela.

772 O que pensar do voto de silêncio determinado por certas seitas desde a Antiguidade?
– Perguntai antes se a palavra é um dom natural e porque Deus a concedeu ao homem. Deus reprova o abuso e não o uso das faculdades que concedeu. Entretanto, há momentos em que o silêncio pode ser útil. No silêncio vos concentrais; vosso Espírito torna-se mais livre e pode então entrar em comunicação conosco. Mas voto de silêncio é uma tolice. Sem dúvida, os que consideram essas privações voluntárias como atos de virtude têm uma boa intenção, mas se enganam porque não compreendem verdadeiramente o alcance das leis de Deus.
  • O voto de silêncio absoluto, como o de isolamento, impede o homem das relações sociais que proporcionam ocasiões de fazer o bem e cumprir a lei do progresso.

Laços de família

773 Por que, entre os animais, pais e filhos deixam de se reconhecer assim que os filhos não necessitam mais de cuidados?
– Os animais vivem vida material e não moral. A ternura da mãe com seus filhotes tem origem no instinto de conservação de suas crias; quando eles podem cuidar de si mesmos, sua tarefa está cumprida, a natureza não exige deles mais nada; por isso os abandona, para se ocupar com os outros recém-chegados.

774 Há pessoas que deduzem, do abandono dos pequenos animais por seus pais, que entre os homens os laços de família são apenas resultado dos costumes sociais e não uma lei natural; que devemos pensar disso?
– O homem tem destinação diferente dos animais; por que, então, querer se parecer com eles? Para o homem, há outra coisa além das necessidades físicas: a necessidade do progresso. Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família estreitam os sociais: eis por que fazem parte da lei natural. Deus quis que os homens aprendessem assim, a se amar como irmãos. (Veja a questão 205.)

775 Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de família?
– Um agravamento do egoísmo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Lei de Destruição

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo VI - Lei  de Destruição


Destruição necessária e destruição abusiva – Flagelos destruidores – Guerras – Assassinato – Crueldade – Duelo – Pena de morte

Destruição necessária e destruição abusiva

728 A destruição é uma lei natural?
– É preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar. O que chamais destruição é apenas transformação que tem por objetivo a renovação e o melhoramento dos seres vivos.
728 a O instinto de destruição teria sido dado aos seres vivos por desígnios providenciais?
– As criaturas são os instrumentos de que Deus se serve para atingir os seus objetivos. Para se alimentarem, os seres vivos se destroem entre si com um duplo objetivo: manter o equilíbrio na reprodução, que poderia tornar-se excessiva, e melhor utilização dos restos do corpo. Mas somente o corpo é destruído, porque é apenas o acessório, e não a parte essencial. O princípio inteligente é indestrutível e se elabora nas diferentes metamorfoses1 que sofre.

729 Se a destruição é necessária para a regeneração dos seres, por que a natureza os cerca com meios de preservação e de conservação?
– Para que a destruição não ocorra antes do tempo preciso. Toda destruição antecipada dificulta o desenvolvimento do princípio inteligente; é por isso que Deus deu a cada ser a necessidade de viver e de se reproduzir.

730 Uma vez que a morte deve nos conduzir a uma vida melhor, que nos livra dos males desta, e, por isso, mais deveria ser desejada do que temida, por que o homem tem um horror instintivo que o faz temê-la?
– Já dissemos, o homem deve procurar prolongar a vida para cumprir sua tarefa; eis por que Deus lhe deu o instinto de conservação, que o sustenta nas provas; sem isso, muitas vezes se deixaria levar pelo desencorajamento. A voz secreta que o faz temer a morte lhe diz que ainda pode fazer alguma coisa para seu adiantamento. Quando um perigo o ameaça, é uma advertência para que aproveite o tempo e a morada que Deus lhe concede. Mas, ingrato! Rende mais vezes graças à sua estrela do que ao seu Criador.

731 Por que, ao lado dos meios de conservação, a natureza colocou ao mesmo tempo os agentes destruidores?
– O remédio ao lado do mal, já dissemos, é para manter o equilíbrio e servir de contrapeso.

732 A necessidade de destruição é a mesma em todos os mundos?
– É proporcional ao estado mais ou menos material dos mundos e cessa quando os estados físico e moral estão mais depurados. Nos mundos mais avançados as condições de existência são completamente diferentes.

733 A necessidade da destruição existirá sempre entre os homens na Terra?
– A necessidade de destruição diminui e se reduz entre os homens à medida que o Espírito se sobrepõe à matéria; é por isso que se constata o horror à destruição crescer com o desenvolvimento intelectual e moral.

734 Em seu estado atual, o homem tem direito ilimitado de destruição sobre os animais?
– Esse direito é regido pela necessidade de prover a sua alimentação e segurança. O abuso nunca foi um direito.

735 O que pensar da destruição que ultrapassa os limites das necessidades e da segurança? Da caça, por exemplo, quando tem por objetivo apenas o prazer de destruir sem utilidade?
– Predominância dos maus instintos sobre a natureza espiritual. Toda destruição que ultrapassa os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais destroem apenas de acordo com suas necessidades; mas o homem, que tem o livre-arbítrio, destrói sem necessidade; ele deverá prestar contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, porque cede aos maus instintos.

736 Os povos que são muito escrupulosos com relação à destruição dos animais têm um mérito particular?
– É um excesso, mesmo sendo um sentimento louvável em si mesmo; se se torna abusivo, seu mérito é neutralizado pelos abusos de outras espécies. Há entre eles mais medo supersticioso do que a verdadeira bondade.

Flagelos destruidores

737 Com que objetivo os flagelos destruidores atingem a humanidade?
– Para fazê-la progredir mais depressa. Não dissemos que a destruição é necessária para a regeneração moral dos Espíritos, que adquirem em cada nova existência um novo grau de perfeição? É preciso ver o objetivo para apreciar os resultados dele. Vós os julgais somente do ponto de vista pessoal e os chamais de flagelos por causa do prejuízo que ocasionam; mas esses aborrecimentos são, na maior parte das vezes, necessários para fazer chegar mais rapidamente a uma ordem de coisas melhores e realizar em alguns anos o que exigiria séculos. (Veja a questão 744.)

738 A Providência não poderia empregar para o aperfeiçoamento da humanidade outros meios que não os flagelos destruidores?
– Sim, pode, e os emprega todos os dias, uma vez que deu a cada um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. É o homem que não tira proveito disso; é preciso castigá-lo em seu orgulho e fazer-lhe sentir sua fraqueza.
738 a Mas nesses flagelos o homem de bem morre como o perverso; isso é justo?
– Durante a vida, o homem sujeita tudo ao seu corpo; mas, após a morte, pensa de outro modo e, como já dissemos, a vida do corpo é pouca coisa; um século de vosso mundo é um relâmpago na eternidade. Portanto, os sofrimentos que sentis por alguns meses ou alguns dias não são nada, são um ensinamento para vós e servirão no futuro. Os Espíritos, que preexistem e sobrevivem a tudo, compõem o mundo real. (Veja a questão 85.) Esses são filhos de Deus e objeto de toda a sua solicitude; os corpos são apenas trajes sob os quais aparecem no mundo. Nas grandes calamidades que destroem os homens, é como se um exército tivesse durante a guerra seus trajes estragados ou perdidos. O general tem mais cuidado com seus soldados do que com as roupas que usam.
738 b Mas nem por isso as vítimas desses flagelos são menos vítimas?
– Se considerásseis a vida como ela é, e quanto é insignificante em relação ao infinito, menos importância lhe daríeis. Essas vítimas encontrarão numa outra existência uma grande compensação para seus sofrimentos se souberem suportá-los sem se lamentar.

  • Quer a morte chegue por um flagelo ou por uma outra causa, não se pode escapar quando a hora é chegada; a única diferença é que, nos flagelos, parte um maior número ao mesmo tempo. Se pudéssemos nos elevar pelo pensamento, descortinando toda a humanidade de modo a abrangê-la inteiramente, esses flagelos tão terríveis não pareceriam mais do que tempestades passageiras no destino do mundo.
739 Os flagelos destruidores têm alguma utilidade do ponto de vista físico, apesar dos males que ocasionam?
– Sim, eles mudam, muitas vezes, as condições de uma região; mas o bem que resulta disso somente é percebido pelas gerações futuras.

740 Os flagelos não seriam para o homem também provas morais que os submetem às mais duras necessidades?
– Os flagelos são provas que proporcionam ao homem a ocasião de exercitar sua inteligência, mostrar sua paciência e sua resignação à vontade da Providência, e até mesmo multiplicam neles os sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se não é dominado pelo egoísmo.

741 É dado ao homem evitar os flagelos que o atormentam?
– Sim, em parte, embora não como se pensa geralmente. Muitos dos flagelos são a conseqüência de sua imprevidência; à medida que adquire conhecimentos e experiência, pode preveni-los se souber procurar suas causas. Porém, entre os males que afligem a humanidade, há os de caráter geral, que estão nos decretos da Providência, e dos quais cada indivíduo sente mais ou menos a repercussão. Sobre esses males, o homem pode apenas se resignar à vontade de Deus; e ainda esses males são, muitas vezes, agravados pela sua negligência.

  • Entre os flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, é preciso colocar na primeira linha a peste, a fome, as inundações, as intempéries fatais à produção da terra. Mas o homem encontrou na ciência, nos trabalhos de arte, no aperfeiçoamento da agricultura, na rotatividade das culturas e nas irrigações, no estudo das condições higiênicas, os meios de neutralizar ou de pelo menos atenuar os desastres. Algumas regiões, antigamente assoladas por terríveis flagelos, não estão preservadas hoje? Que não fará, portanto, o homem pelo seu bem-estar material quando souber aproveitar todos os recursos de sua inteligência e quando, aos cuidados de sua conservação pessoal, souber aliar o sentimento da verdadeira caridade por seus semelhantes? (Veja a questão 707.)
Guerras

742 Qual é a causa que leva o homem à guerra?
– Predominância da natureza selvagem sobre a espiritual e satisfação das paixões. No estado de barbárie, os povos conhecem apenas o direito do mais forte; é por isso que a guerra é para eles um estado normal. Contudo, à medida que o homem progride, ela se torna menos freqüente, porque evita as suas causas, e quando é inevitável sabe aliar à sua ação o sentimento de humanidade.

743 A guerra desaparecerá um dia da face da Terra?
– Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus; então, todos os povos serão irmãos.

744 Qual o objetivo da Providência ao tornar a guerra necessária?
– A liberdade e o progresso.
744 a Se a guerra deve ter como efeito conduzir à liberdade, como se explica que tenha, muitas vezes, por objetivo e resultado a escravidão?
– Escravidão temporária para abater os povos, a fim de fazê-los progredir mais rápido.

745 O que pensar daquele que provoca a guerra em seu proveito?
– Esse é o verdadeiro culpado e precisará de muitas reencarnações para expiar todas as mortes que causou, porque responderá por todo homem cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.

Assassinato

746 O assassinato é um crime aos olhos de Deus?
– Sim, um grande crime; porque aquele que tira a vida de seu semelhante corta uma vida de expiação ou de missão, e aí está o mal.

747 O assassinato tem sempre o mesmo grau de culpabilidade?
– Já o dissemos: Deus é justo, julga mais a intenção do que o fato.

748 Perante Deus há justificativa no assassinato em caso de legítima defesa?
– Somente a necessidade pode desculpá-lo. Mas se o agredido pode preservar sua vida sem atentar contra a do agressor, deve fazê-lo.

749 O homem é culpado pelos assassinatos que comete durante a guerra?
– Não, quando constrangido pela força, embora seja culpado pelas crueldades que comete. O sentimento de humanidade com que se portou será levado em conta.

750 Qual é mais culpado diante da lei de Deus, aquele que mata um pai ou aquele que mata uma criança?
– Ambos o são igualmente, porque todo crime é crime.

751 Como se explica que alguns povos, já avançados do ponto de vista intelectual, matem crianças e isso seja dos costumes e consagrado pela legislação?
– O desenvolvimento intelectual não pressupõe a necessidade do bem; um Espírito Superior em inteligência pode ser mau. É aquele que viveu muito sem se melhorar: apenas sabe.

Crueldade

752 Pode-se ligar o sentimento de crueldade ao instinto de destruição?
– É o instinto de destruição no que há de pior. Se a destruição é, às vezes, uma necessidade, a crueldade nunca é; é sempre o resultado de uma natureza má.

753 Como se explica que a crueldade seja a característica predominante dos povos primitivos?
– Entre os povos primitivos, como os chamais, a matéria prepondera sobre o Espírito; eles se abandonam aos instintos bárbaros e, como não têm outras necessidades além da vida corporal, pensam somente em sua conservação pessoal, e é isso que os torna geralmente cruéis. Além do mais, os povos cujo desenvolvimento é imperfeito estão sob o domínio de Espíritos igualmente imperfeitos que lhes são simpáticos, até que povos mais avançados venham destruir ou enfraquecer essa influência.

754 A crueldade não vem da ausência do senso moral?
– Diremos melhor, que o senso moral não está desenvolvido, mas não que esteja ausente, porque ele existe, como princípio, em todos os homens; é esse senso moral que os faz mais tarde serem bons e humanos. Ele existe, portanto, no selvagem, mas está como o princípio do perfume está no germe da flor antes de desabrochar.
  • Todas as faculdades existem no homem em condição rudimentar ou latente. Elas se desenvolvem conforme as circunstâncias lhes são mais ou menos favoráveis. O desenvolvimento excessivo de uma faz cessar ou neutraliza o das outras. A superexcitação dos instintos materiais sufoca, por assim dizer, o senso moral, como o desenvolvimento do senso moral enfraquece, pouco a pouco, as faculdades puramente selvagens.
755 Como se explica existirem, no seio da civilização mais avançada, seres algumas vezes tão cruéis quanto os selvagens?
– Exatamente como numa árvore carregada de bons frutos há os que ainda não amadureceram, não atingiram o pleno desenvolvimento. São, se o quiserdes, selvagens que têm da civilização apenas o hábito, lobos extraviados no meio de ovelhas. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados podem encarnar em meio a homens avançados na esperança de avançarem; mas, sendo a prova muito pesada, a natureza primitiva os domina.

756 A sociedade dos homens de bem estará um dia livre dos malfeitores?
– A humanidade progride; esses homens dominados pelo instinto do mal que se acham deslocados entre as pessoas de bem desaparecerão pouco a pouco, como o mau grão é separado do bom depois de selecionado. Então renascerão sob um outro corpo e, como terão mais experiência, compreenderão melhor o bem e o mal. Tendes um exemplo disso nas plantas e nos animais que o homem conseguiu aperfeiçoar e nos quais desenvolveu qualidades novas. Pois bem! É somente depois de muitas gerações que o aperfeiçoamento se torna completo. É a imagem das diferentes existências do homem.

Duelo

757 O duelo pode ser considerado como legítima defesa?
– Não; é um assassinato e um costume absurdo, digno de bárbaros. Com uma civilização mais adiantada e moralizada, o homem compreenderá que o duelo é tão ridículo quanto os combates que se consideraram antigamente como o juízo de Deus.

758 O duelo pode ser considerado como um assassinato por parte daquele que, conhecendo sua própria fraqueza, está quase certo de que vai morrer?
– É um suicida.
758 a E quando as probabilidades são iguais, é um assassinato ou um suicídio?
– Ambos.
  • Em todos os casos, mesmo naqueles em que as probabilidades são iguais, o duelista é culpado, primeiramente, porque ele atenta friamente e de propósito deliberado contra a vida de seu semelhante, e depois porque expõe sua própria vida inutilmente e sem proveito para ninguém.
759 Qual é o valor do que se chama ponto de honra em matéria de duelo?
– Orgulho e vaidade: duas chagas da humanidade.
759 a Mas não há casos em que a honra se encontra verdadeiramente ofendida e um recuo seria covardia?
– Isso depende dos costumes e dos usos; cada país e cada século tem sobre isso uma visão diferente; quando os homens forem melhores e mais adiantados em moral compreenderão que o verdadeiro ponto de honra está acima das paixões terrenas e não é nem matando nem deixando-se matar que se repara um erro.
  • Há mais grandeza e verdadeira honra em se confessar culpado, quando errou, ou em perdoar, quando se tem razão e, em todos os casos, em desprezar os insultos, que não o podem atingir.
Pena de morte

760 A pena de morte desaparecerá um dia da legislação humana?
– A pena de morte desaparecerá incontestavelmente e sua supressão marcará um progresso na humanidade. Quando os homens estiverem mais esclarecidos, a pena de morte será completamente abolida da Terra, os homens não terão mais necessidade de serem julgados pelos homens. Falo de um tempo que ainda está muito distante de vós.
  • O progresso social deixa, sem dúvida, ainda muito a desejar, mas seria injusto com a sociedade atual se não se reconhecesse um progresso nas restrições feitas à pena de morte entre os povos mais avançados e quanto à natureza dos crimes aos quais se limita a sua aplicação. Se compararmos as garantias com que a justiça, entre esses mesmos povos, se empenha para cercar o acusado e a forma humanitária com que o trata, ainda mesmo que seja reconhecidamente culpado, com o que se praticava nos tempos que ainda não estão muito distantes, não se pode negar o avanço no caminho progressivo em que marcha a humanidade.
761 A lei de conservação assegura ao homem o direito de preservar sua própria vida; não usa desse direito quando elimina da sociedade um membro perigoso?
– Há outros meios de se preservar do perigo sem precisar matar. É necessário, aliás, abrir ao criminoso a porta do arrependimento, e não fechá-la.

762 Se a pena de morte pode ser banida das sociedades civilizadas, não foi uma necessidade nas épocas menos avançadas?
– Necessidade não é bem a palavra. O homem acha sempre uma coisa necessária quando não encontra justificativa melhor; mas, à medida que se esclarece, compreende mais acertadamente o que é justo ou injusto e repudia os excessos cometidos nos tempos de ignorância, em nome da justiça.

763 A restrição dos casos em que se aplica a pena de morte é um indício de progresso na civilização?
– Podeis duvidar disso? Vosso Espírito não se revolta ao ler a narrativa das carnificinas humanas de antigamente em nome da justiça e em honra da Divindade? Das torturas que sofria o condenado, e mesmo um simples suspeito, para lhe arrancar, pelo excesso dos sofrimentos, a confissão de um crime que muitas vezes não cometeu? Pois bem! Se tivésseis vivido naquele tempo, teríeis achado isso muito natural e talvez, se juízes fôsseis, teríeis feito o mesmo. É assim que o justo de uma época parece bárbaro em outra. As leis divinas são as únicas eternas; as leis humanas mudam com o progresso e ainda mudarão até que sejam colocadas em harmonia com as leis divinas.

764 Jesus ensinou: “Quem matou pela espada morrerá pela espada”. Essas palavras não são a consagração da pena de Talião e a morte aplicada ao homicida não é a aplicação dessa pena?
– Tomai cuidado! Tendes vos enganado sobre essas palavras como sobre muitas outras. A pena de Talião é a justiça de Deus; é Ele que a aplica. Todos vós sofreis a cada instante essa penalidade, porque sois punidos pelos erros que cometeis, nessa vida ou em outra; aquele que fez sofrer seus semelhantes estará numa posição em que ele mesmo sofrerá o que tiver causado. Esse é o sentido dessas palavras de Jesus, que também disse: “Perdoai aos vossos inimigos”, e ensinou a pedir a Deus para perdoar vossas ofensas como vós mesmos tiverdes perdoado,ou seja, na mesma proporção em que perdoardes. Deveis compreender bem isso.

765 O que pensar da pena de morte aplicada em nome de Deus?
– É tomar o lugar de Deus na justiça. Os que agem assim estão longe de compreender Deus e ainda têm muito a expiar. A pena de morte é também um crime quando aplicada em nome de Deus, e os que a ordenam são responsáveis por assassinato.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lei de Conservação

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo V - Lei  de Conservação



Instinto de conservação – Meios de conservação – Prazeres dos bens da terra – Necessário e supérfluo – Privações voluntárias. Mortificações


Instinto de conservação


702 O instinto de conservação é uma lei natural?
– Sem dúvida. Foi dado a todos os seres vivos, seja qual for o grau de inteligência. Para uns, é puramente mecânico; para outros, é racional.

703 Com que objetivo Deus deu a todos os seres vivos o instinto de conservação?
– Porque todos devem cumprir os desígnios da Providência; é por isso que Deus deu o instinto de conservação. Além disso, a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres que têm instintivamente esse sentimento, sem se darem conta disso.


Meios de conservação


704 Deus, dando ao homem a necessidade de viver, sempre lhe forneceu os meios para isso?
– Sim. Se não os encontra, é por falta de iniciativa. Deus não poderia dar ao homem a necessidade de viver sem lhe dar os meios, por isso faz a terra produzir e fornecer o necessário a todos, porque só o necessário é útil. O supérfluo nunca é.

705 Por que nem sempre a terra produz o suficiente para fornecer o necessário ao homem?
– O homem a negligencia por ingratidão e, no entanto, a terra continua sendo uma excelente mãe. Além disso, ele ainda acusa a natureza por sua própria imperícia ou imprevidência. A terra produziria sempre o necessário se o homem soubesse se contentar. Se o que produz não é bastante para todas as necessidades, é porque emprega no supérfluo o que deveria utilizar no necessário. Observai o árabe no deserto: encontra sempre com o que viver, porque não cria necessidades artificiais. Porém, quando a metade da produção é desperdiçada para satisfazer fantasias, deve o homem se espantar de não encontrar nada em seguida? E terá razão de se queixar por estar desprovido quando chega a época da escassez? Na verdade, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe regrar sua vida.

706 Por bens da terra somente devemos entender os produtos do solo?
– O solo é a fonte primária de onde vêm todos os outros recursos, que são apenas uma transformação dos produtos do solo; por isso, é preciso entender por bens da terra tudo o que o homem pode desfrutar neste mundo.

707 Os meios de subsistência, muitas vezes, faltam a alguns, mesmo em meio à abundância que os cerca; por quê?
– É pelo egoísmo dos homens em geral e também, freqüentemente, por negligência deles mesmos. Buscai e achareis; essas palavras não querem dizer que basta olhar a terra para encontrar o que se deseja, mas que é preciso procurar com ardor e perseverança e não com fraqueza, sem se deixar desencorajar pelos obstáculos que, muitas vezes, são apenas meios de colocar à prova a vossa constância, paciência e firmeza. (Veja a questão 534.)

  • Se a civilização multiplica as necessidades, também multiplica as fontes de trabalho e os meios de vida; mas é preciso admitir que sob esse aspecto resta ainda muito a fazer. Quando a civilização terminar sua obra, ninguém poderá queixar-se de que lhe falta o necessário, senão por sua própria culpa. A infelicidade, para muitos, decorre de enveredarem por um caminho que não é o que a natureza traçou; é então que falta inteligência para terem êxito. Há lugar ao sol para todos, mas com a condição de cada um ter o seu, e não o dos outros. A natureza não pode ser responsável pelos vícios de organização social nem pelas conseqüências da ambição e do amor-próprio. Entretanto, seria preciso ser cego para não reconhecer o progresso que se realizou sob esse aspecto entre os povos mais avançados. Graças aos louváveis esforços que a filantropia e a ciência juntas não param de fazer para o melhoramento da condição material dos homens, e apesar do contínuo aumento das populações, a insuficiência da produção está atenuada em grande parte, pelo menos. Os anos mais calamitosos hoje nada têm de comparável aos de antigamente. A higiene pública, esse elemento tão essencial para o bem-estar e a saúde, desconhecida de nossos pais, é agora objeto de cuidados especiais; o infortúnio e o sofrimento encontram lugares de refúgio. Em toda parte a ciência contribui para aumentar o bem-estar. Pode-se dizer que já alcançou a perfeição? Certamente que não. Mas o que já se fez dá a medida do que se pode fazer com perseverança, se o homem é bastante sábio para procurar sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não nas utopias que o fazem recuar em vez de progredir.
708 Não há situações em que os meios de subsistência não dependem de modo algum da vontade do homem, e a privação até daquilo que mais necessita é uma conseqüência das circunstâncias?
– É uma prova muitas vezes cruel que deve passar e à qual sabia que seria exposto. Seu mérito está em sua submissão à vontade de Deus, se sua inteligência não fornece nenhum meio de se livrar das dificuldades. Se a morte deve atingi-lo, deve se submeter sem reclamar e compreender que a hora da verdadeira libertação chegou e que o desespero do último momento pode lhe fazer perder o fruto de sua resignação.

709 Aqueles que, em certas posições críticas, se viram obrigados a sacrificar seus semelhantes para se alimentarem deles, cometeram um crime? Nesse caso, o crime pode ser atenuado pela necessidade de viver que lhes dá o instinto de conservação?
– Já respondi, ao dizer que há mais mérito em sofrer todas as provas da vida com coragem e abnegação. Nesse caso, há homicídio e crime de lesa-natureza, faltas que devem ser duplamente punidas.

710 Nos planetas onde o corpo é mais depurado, os seres vivos têm necessidade de alimentação?
– Sim, mas os alimentos estão de acordo com sua natureza. Esses alimentos não seriam muito substanciais para vossos estômagos grosseiros, do mesmo modo que, para eles, a vossa alimentação também não serviria.


Prazeres dos bens da terra


711 O uso dos bens da terra é um direito para todos os homens?
– Esse direito é a conseqüência da necessidade de viver. Deus não pode impor um dever sem dar o meio de satisfazê-lo.

712 Por que Deus colocou o atrativo do prazer na posse e uso dos bens materiais?
– Para estimular o homem ao cumprimento de sua missão e experimentá-lo por meio da tentação.
712 a Qual é o objetivo dessa tentação?
– Desenvolver sua razão, que deve preservá-lo dos excessos.
  • Se o homem tivesse considerado o uso dos bens da Terra somente pela utilidade que eles têm, sua indiferença poderia comprometer a harmonia do universo: Deus lhe deu o atrativo do prazer para o cumprimento dos seus desígnios. Mas pelo que possa representar esse atrativo quis, por outro lado, prová-lo por meio da tentação que o arrasta para o abuso do qual sua razão deve defendê-lo.

713 Os prazeres têm limites traçados pela natureza?
– Sim, têm o limite do necessário; mas, pelos excessos, chegais ao extremo exagero e à repulsa e vos punis a vós mesmos.

714 O que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento para seus prazeres?
– Pobre infeliz digno de lástima e não de inveja. Está bem próximo da morte!
714 a Da morte física ou moral?
– De ambas.
  • O homem que procura nos excessos de toda espécie um requinte de prazeres coloca-se abaixo do animal, porque o animal sabe deter-se na satisfação da sua necessidade. Despreza o homem a razão que Deus lhe deu por guia, e, quanto maiores os seus excessos, mais domínio exerce sua natureza primitiva sobre sua natureza espiritual. As doenças, a decadência, a morte prematura decorrentes dos abusos são a conseqüência da transgressão da lei divina.

Necessário e supérfluo


715 Como o homem pode conhecer o limite do necessário?
– Aquele que é sensato o conhece pela intuição; muitos o conhecem pela experiência e à sua própria custa.

716 A natureza não traçou o limite de nossas necessidades em nossa estrutura orgânica?
– Sim, mas o homem é insaciável. A natureza traçou o limite às suas necessidades no seu próprio organismo, mas os vícios lhe alteraram a constituição e criaram necessidades que não são reais.

717 O que pensar dos que monopolizam os bens da terra para obter o supérfluo em prejuízo dos que precisam do necessário?
– Eles desconhecem a lei de Deus e terão que responder pelas privações que impuseram aos outros.
  • O limite entre o necessário e o supérfluo não tem nada de absoluto, de indiscutível. A civilização criou necessidades que o selvagem desconhece, e os Espíritos que ditaram esses ensinamentos não pretendem que o homem civilizado viva como o selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão distinguir cada coisa. A civilização desenvolve o senso ético e ao mesmo tempo o sentimento de caridade, que leva os homens ao apoio mútuo. Os que vivem à custa das necessidades dos outros exploram os benefícios da civilização em seu proveito; têm da civilização apenas o verniz, como há pessoas que têm da religião apenas a máscara.

Privações voluntárias. Mortificações


718 A lei de conservação obriga o homem a prover as necessidades do corpo?
– Sim, sem força e saúde o trabalho é impossível.

719 É condenável ao homem procurar o seu bem-estar?
– O bem-estar é um desejo natural. Os abusos são condenáveis porque contrariam a lei de conservação. O bem-estar é condenável se foi adquirido à custa dos outros e se comprometeu o equilíbrio moral e físico do homem.

720 As privações voluntárias, que resultam numa expiação igualmente voluntária, têm algum mérito aos olhos de Deus?
– Quanto mais fazeis o bem aos outros mais mérito tereis.
720 a Há privações voluntárias que sejam meritórias?
– Sim, a renúncia aos prazeres inúteis, que liberta o homem da matéria e eleva sua alma. O meritório é resistir à tentação que o conduz aos excessos ou ao prazer das coisas inúteis; é tirar do que lhe é necessário para doar àqueles que não têm o suficiente. Se a privação é apenas fingimento, é uma zombaria.

721 A vida de mortificações ascéticas dos devotos e dos místicos, praticada desde a Antiguidade e entre diferentes povos, é meritória sob algum ponto de vista?
– Perguntai para o que e a quem ela serve e tereis a resposta. Se serve apenas àquele que a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, qualquer que seja o pretexto com o qual se disfarce. Renegar-se a si mesmo e trabalhar para os outros é a verdadeira mortificação, conforme a caridade cristã.

722 A abstenção de alguns alimentos, regra entre diversos povos, é fundada na razão?
– Tudo aquilo com que o homem pode se alimentar sem prejuízo para a sua saúde é permitido. Porém, alguns legisladores resolveram proibir alguns alimentos com um objetivo útil e, para dar maior autoridade às suas leis, as apresentaram como se fossem vindas de Deus.

723 A alimentação animal é, para o homem, contrária à lei natural?
– Em vossa constituição física, a carne alimenta a carne; de outro modo, o homem enfraquece. A lei de conservação dá ao homem o dever de manter suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Ele deve, portanto, se alimentar conforme as exigências de seu organismo.

724 A abstenção de alimento animal ou outro, como purificação, é meritória?
– Sim, se essa abstenção for em benefício dos outros; mas Deus não pode ver uma mortificação quando não é séria e útil. Por isso dizemos que aqueles que se privam apenas na aparência são hipócritas. (Veja a questão720.)

725 Que pensar das mutilações que se fazem no corpo do homem e dos animais?
– Por que tal questão? Perguntai, a vós mesmos, ainda uma vez e sempre, se uma coisa é útil. O que é inútil não pode ser agradável a Deus e o que é nocivo é sempre desagradável; porque, deveis saber, Deus só é sensível aos sentimentos daqueles que lhe elevam a alma; é praticando Sua Lei que podereis vos libertar da matéria terrestre, e não violando-a.

726 Se os sofrimentos deste mundo nos elevam pela maneira que os suportamos, elevam-nos também os que criamos voluntariamente?
– Os únicos sofrimentos que elevam são os sofrimentos naturais, por que vêm de Deus; os sofrimentos voluntários não servem para nada quando não contribuem para o bem dos outros. Por acaso acreditais que avançam no caminho do progresso os que abreviam sua vida nos rigores sobre-humanos, como fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que não trabalham antes pelo bem de seus semelhantes? Que vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem por aquele que está enfermo; sofram necessidades para o alívio dos infelizes; então, sim, sua vida será útil e agradável a Deus. Quando os sofrimentos voluntários têm em vista apenas a si mesmo, é egoísmo; quando se sofre pelos outros, é caridade: são estes os preceitos do Cristo.

727 Se não devemos criar sofrimentos voluntários sem utilidade para os outros, devemo-nos preservar daqueles que prevemos ou que nos ameaçam?
– O instinto de conservação foi dado a todos contra os perigos e os sofrimentos. Mortificai o Espírito e não vosso corpo, exterminai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo, que parece uma serpente que vos tortura o coração, e fareis mais por vosso adiantamento do que por meio de rigores que não são mais deste século.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Lei de Reprodução

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo IV - Lei  de Reprodução


População do globo – Sucessão e aperfeiçoamento das raças – Obstáculos à reprodução – Casamento e celibato – Poligamia


População do globo


686 A reprodução dos seres vivos é uma lei da natureza?
– Isso é evidente; sem a reprodução, o mundo corporal acabaria.

687 Se a população seguir sempre a progressão crescente que vemos, chegará um momento em que será excessiva na Terra?
– Não; Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio, não faz nada inútil; o homem que vê apenas um canto do quadro da natureza não pode julgar a harmonia do conjunto.


Sucessão e aperfeiçoamento das raças


688 Há, presentemente, raças humanas que diminuem; chegará um momento em que desaparecerão da face da Terra?
– É verdade, mas outras tomaram seu lugar, como outras tomarão o da vossa um dia.

689 Os homens atuais são uma criação nova ou descendentes aperfeiçoados dos seres primitivos?
– São os mesmos Espíritos que vieram para se aperfeiçoar em novos corpos, mas que ainda estão longe da perfeição. Assim, a raça humana atual, pelo seu crescimento, tende a expandir-se sobre toda a Terra e substituir as raças que se extinguem, terá seu período de decrescimento e desaparecerá. Outras raças mais aperfeiçoadas a substituirão, descendendo da raça atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos.

690 Do ponto de vista puramente físico, os corpos da raça atual são uma criação especial ou vieram dos corpos primitivos pelo caminho da reprodução?
– A origem das raças se perde no tempo; como todas pertencem à grande família humana, qualquer que seja a fonte primitiva de cada uma, elas puderam se juntar entre si e produzir tipos novos.

691 Qual é, do ponto de vista físico, a característica distintiva e dominante das raças primitivas?
– Desenvolvimento da força bruta em vez da intelectual. Atualmente ocorre o contrário: o homem faz mais pela inteligência do que pela força do corpo e, entretanto, faz cem vezes mais, porque soube aproveitar as forças da natureza, o que os animais não conseguem fazer.

692 O aperfeiçoamento genético das raças animais e dos vegetais, pela ciência, é contrária à lei natural? Estaria mais conforme com essa lei deixar as coisas seguirem seu curso normal?
– Deve-se fazer tudo para chegar à perfeição, e o próprio homem é um instrumento nas mãos de Deus, do qual Ele se serve para que tudo à sua volta atinja os objetivos aos quais se destina. A perfeição, sendo o objetivo para o qual tende a natureza, é de Deus favorecer essa perfeição.
692 a Mas o homem somente se esforça para o melhoramento dessas raças por interesse pessoal e, raramente, tem outro objetivo senão o aumento de seus prazeres; isso não diminui seu mérito?
– Que importa que seu mérito seja nulo, contanto que o progresso se faça? Cabe a ele tornar seu trabalho meritório pela intenção. Aliás, por meio desse trabalho, exerce e desenvolve sua inteligência e é sob esse aspecto que obtém maior proveito.


Obstáculos à reprodução


693 As leis e costumes humanos que criam obstáculos à reprodução são contrários à lei da natureza?
– Tudo o que dificulte a marcha da natureza é contrário à lei geral.
693 a Entretanto, há espécies de seres vivos, animais e plantas cuja reprodução indefinida seria prejudicial a outras espécies e o próprio homem se tornaria uma vítima; comete ele um ato repreensível ao impedir essa reprodução?
– Deus deu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder que deve usar para o bem, mas do qual não deve abusar. Pode-se regular a reprodução conforme as necessidades, mas do qual não deve dificultá-la sem razão. A ação inteligente do homem é um contrapeso estabelecido por Deus para equilibrar as forças da natureza, e é isso ainda que o distingue dos animais, porque o faz com conhecimento de causa. Mas os próprios animais também concorrem para esse equilíbrio, porque o instinto de destruição que lhes foi dado faz com que, ao terem de prover sua própria conservação, detenham o desenvolvimento excessivo e talvez perigoso das espécies animais e vegetais de que se nutrem.

694 Que pensar do controle da natalidade para impedir a reprodução e satisfazer a sensualidade?
– Isso prova a predominância do corpo sobre a alma e quanto o homem está materializado.


Casamento e celibato


695 O casamento, ou a união permanente de dois seres, é contrária à lei natural?
– É um progresso na marcha da humanidade.

696 Qual seria o efeito da abolição do casamento para a sociedade humana?
– O retorno à vida animal.

  • A união livre e casual dos sexos é um estado natural. O casamento é um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e aparece entre todos os povos, ainda que em condições diversas. A abolição do casamento seria o retorno à infância da humanidade e colocaria o homem até mesmo abaixo de alguns animais que dão exemplo de uniões constantes.
697 A idéia de que o casamento não pode ser absolutamente dissolvido está na lei natural ou apenas na lei humana?
– É uma lei humana muito contrária à lei natural. Mas os homens podem mudar suas leis; as da natureza são as únicas imutáveis.

698 O celibato voluntário é meritório aos olhos de Deus?
– Não, e os que vivem assim por egoísmo desagradam a Deus e enganam a todos.

699 O celibato não é para algumas pessoas um sacrifício com a finalidade de se devotar mais inteiramente ao serviço da humanidade?
– Isso é bem diferente; eu disse: por egoísmo. Todo sacrifício pessoal é meritório quando é para o bem; quanto maior o sacrifício, maior o mérito.

  • Deus não pode se contradizer nem achar mau o que fez. Não pode haver mérito na violação de Sua lei; mas se o celibato, por si mesmo, não é meritório, não ocorre o mesmo quando é pela renúncia às alegrias da família, um sacrifício decidido em favor da humanidade. Todo sacrifício pessoal para o bem e sem o disfarce do egoísmo eleva o homem acima de sua condição material.
Poligamia


700 A igualdade numérica aproximada que existe entre homens e mulheres é um indício da proporção em que se devam unir?
– Sim, porque tudo tem uma finalidade na natureza.

701 Qual das duas, a poligamia ou a monogamia, está mais de acordo com a lei natural?
– A poligamia é uma lei humana cuja abolição marca um progresso social. O casamento, conforme os desígnios de Deus, deve estar fundado na afeição dos seres que se unem. Com a poligamia não há afeição real: há apenas sensualidade.
  • Se a poligamia estivesse de acordo com a lei natural, deveria ser universal, o que seria materialmente impossível por causa da igualdade numérica dos sexos. A poligamia deve ser considerada como um uso particular ou uma legislação especial, apropriada a alguns costumes, e que o aperfeiçoamento social faz pouco a pouco desaparecer.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lei do Trabalho

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo III- Lei  do Trabalho


Necessidade do trabalho – Limite do trabalho. Repouso




Necessidade do trabalho




674 A necessidade do trabalho é uma lei da natureza?
– O trabalho é uma lei natural, por isso mesmo é uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque aumenta suas necessidades e prazeres.

675 Devem-se entender por trabalho somente as ocupações materiais?
– Não; o Espírito também trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho.

676 Por que o trabalho é imposto ao homem?
– É uma conseqüência de sua natureza corporal. É uma expiação e ao mesmo tempo um meio de aperfeiçoar sua inteligência. Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância da inteligência; por isso deve seu sustento, segurança e bem-estar apenas ao seu trabalho e à sua atividade. Àquele que tem o corpo muito fraco, Deus deu a inteligência como compensação; mas é sempre um trabalho.

677 Por que a própria natureza provê, por si mesma, a todas as necessidades dos animais?
– Tudo trabalha na natureza; os animais trabalham como vós, mas seu trabalho, como sua inteligência, é limitado ao cuidado de sua conservação. Eis por que entre eles o trabalho não gera o progresso, enquanto entre os homens há um duplo objetivo: a conservação do corpo e o desenvolvimento do pensamento, que é também uma necessidade que o eleva acima de si mesmo. Quando digo que o trabalho dos animais é limitado ao cuidado de sua conservação, refiro-me ao objetivo a que se propõem a trabalhar; mas, inconscientemente, ao prover suas necessidades materiais, se constituem em agentes dos desígnios do Criador, e seu trabalho não concorre menos para o objetivo final da natureza, se bem que muitas vezes não percebeis o resultado de imediato.

678 Nos mundos mais aperfeiçoados, o homem está sujeito à mesma necessidade de trabalho?
– A natureza do trabalho é relativa à natureza das necessidades. Quanto menos as necessidades são materiais, menos o trabalho é material; mas não deveis crer, por isso, que o homem fica inativo e inútil: a ociosidade seria um suplício, em vez de ser um benefício.

679 O homem que possui bens suficientes para assegurar sua existência está livre da lei do trabalho?
– Do trabalho material, pode ser, mas não da obrigação de se tornar útil conforme seus meios, de aperfeiçoar sua inteligência ou a dos outros, o que é também um trabalho. Se o homem a quem Deus distribuiu bens suficientes não está obrigado a se sustentar com o suor de seu rosto, a obrigação de ser útil a seus semelhantes é tanto maior quanto as oportunidades que surjam para fazer o bem, com o adiantamento que Deus lhe fez em bens materiais.

680 Não há homens impossibilitados para trabalhar no que quer que seja e cuja existência é inútil?
– Deus é justo. Apenas desaprova aquele que voluntariamente tornou inútil sua existência, porque esse vive à custa do trabalho dos outros. Ele quer que cada um se torne útil conforme suas aptidões. (Veja a questão 643.)

681 A lei natural impõe aos filhos a obrigação de trabalhar por seus pais?
– Certamente, do mesmo modo que os pais devem trabalhar por seus filhos; é por isso que Deus fez do amor filial e do amor paternal um sentimento natural para que, por essa afeição recíproca, os membros de uma mesma família fossem levados a se ajudarem mutuamente, o que é freqüentemente esquecido em vossa sociedade atual. (Veja a questão 205.)


Limite do trabalho. Repouso


682 O repouso, sendo uma necessidade após o trabalho, não é também uma lei natural?
– Sem dúvida. O repouso repara as forças do corpo e é também necessário para dar um pouco mais de liberdade à inteligência, para que se eleve acima da matéria.

683 Qual é o limite do trabalho?
– O limite das forças; entretanto, Deus deixa o homem livre.

684 O que pensar daqueles que abusam de sua autoridade para impor a seus inferiores excesso de trabalho?
– É uma das piores ações. Todo homem que tem o poder de comandar é responsável pelo excesso de trabalho que impõe a seus subordinados, porque transgride a lei de Deus. (Veja a questão 273.)

685 O homem tem direito ao repouso na velhice?
– Sim. Ao trabalho está obrigado apenas conforme suas forças.
685 a Mas que recurso tem o idoso necessitado de trabalhar para viver, se já não pode?
– O forte deve trabalhar pelo fraco e, na falta da família, a sociedade deve tomar o seu lugar: é a lei da caridade.

  • Não basta dizer ao homem que é seu dever trabalhar, é preciso ainda que aquele que tem de prover a existência com seu trabalho encontre com que se ocupar, o que nem sempre acontece. Quando a falta do trabalho se generaliza, toma proporções de um flagelo como a miséria. A ciência econômica procura o remédio no equilíbrio entre a produção e o consumo; mas esse equilíbrio, supondo-se que seja possível, não será contínuo, e nesses intervalos o trabalhador precisa viver. Há um elemento que não se costuma considerar, sem o qual a ciência econômica torna-se apenas uma teoria: é a educação. Não a educação intelectual, mas a educação moral; não ainda a educação moral pelos livros, mas a que consiste na arte de formar o caráter, que dá os hábitos: porque educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Quando se pensa na massa de indivíduos lançados a cada dia na torrente da população, sem princípios nem freios e entregues aos próprios instintos, devem causar espanto as conseqüências desastrosas que resultam disso? Quando essa arte for conhecida e praticada, o homem trará hábitos de ordem e de previdência para si e para os seus, de respeito pelo que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos angustiado os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que uma educação bem conduzida pode curar; aí está o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança de todos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Lei de Adoração

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo II - Lei  de Adoração


Objetivo da adoração – Adoração exterior – Vida contemplativa – Prece – Politeísmo – Sacrifícios


Objetivo da adoração


649 Em que consiste a adoração?
– É a elevação do pensamento a Deus. Pela adoração, a alma se aproxima d’Ele.

650 A adoração é para o homem resultado de um sentimento natural ou conseqüência de um ensinamento?
– É sentimento inato, como o da existência de Deus. A consciência de sua fraqueza leva o homem a se curvar diante d’Aquele que pode protegê-lo.

651 Houve povos desprovidos de todo sentimento de adoração?
– Não, nunca houve povos ateus. Todos compreendem que acima de tudo há um ser supremo.

652 Pode-se considerar a adoração como tendo origem na lei natural?
– Ela está na lei natural, pois é o resultado de um sentimento natural no homem. Eis por que se encontra entre todos os povos, ainda que sob formas diferentes.


Adoração exterior


653 A adoração tem necessidade de manifestações exteriores?
– A verdadeira adoração é a do coração. Em todas as vossas ações, imaginai sempre que o Senhor está convosco.
653 a A adoração exterior é útil?
– Sim, se não for uma farsa, uma vã simulação. É sempre útil dar um bom exemplo; mas aqueles que o fazem de forma fingida ou por amor-próprio e cuja conduta desmente a piedade que aparentam dão um exemplo antes mau do que bom e fazem mais mal do que pensam.

654 Deus dá preferência aos que O adoram desse ou daquele modo?
– Deus prefere os que O adoram verdadeiramente com o coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, àqueles que acreditam honrá-lo por cerimônias que não os tornam melhores para com seus semelhantes.
Todos os homens são irmãos e filhos de Deus; Ele chama para si todos que seguem Suas leis, qualquer que seja a forma em que se exprimam.
Quem tem apenas a piedade aparente é hipócrita; aquele em que a adoração é apenas fingimento e presunção, em contradição com sua conduta, dá um mau exemplo.
Aquele que faz da adoração do Cristo uma profissão e que é orgulhoso, invejoso e ciumento, que é duro e implacável para com os outros, ou ambicioso pelos bens deste mundo, eu vos digo que a religião está nos seus lábios e não no coração. Deus, que vê tudo, dirá: aquele que conhece a verdade é cem vezes mais culpado do mal que faz do que o ignorante selvagem que vive isolado e será tratado desse modo no dia da justiça. Se um cego vos derruba ao passar, o desculpareis; se é um homem que vê claramente, vos queixareis e tendes razão.
Não pergunteis, portanto, se há uma forma de adoração mais conveniente, porque isso seria perguntar se é mais agradável a Deus ser adorado antes em uma língua do que em outra. Eu vos digo ainda mais uma vez: os cânticos apenas chegam a Ele pela porta do coração.

655 É repreensível praticar uma religião em que não se acredita sinceramente, visando somente o respeito e para não escandalizar aqueles que pensam de outro modo?
– A intenção, nisso como em muitas outras coisas, constitui a regra. Aquele que respeita as crenças dos outros não procede mal; faz melhor do que aquele que as ridiculariza, porque falta à caridade; mas aquele que a pratica por interesse e por ambição é desprezível aos olhos de Deus e dos homens. A Deus não agradam os que aparentam se humilhar diante Dele apenas para desfrutar da aprovação dos homens.

656 A adoração coletiva é preferível à individual?
– Os homens reunidos numa comunhão de pensamentos e de sentimentos têm mais força para atrair os bons Espíritos. Ocorre o mesmo quando se reúnem para adorar a Deus. Mas não acrediteis, por isso, que a adoração particular seja de menos valor, porque cada um pode adorar a Deus ao pensar n’Ele.

Vida contemplativa


657 Os homens que se entregam à vida contemplativa, não fazendo nenhum mal e pensando apenas em Deus, têm mérito perante Deus?
– Não, porque se não fazem o mal também não fazem o bem, e são inúteis; aliás, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que se pense n’Ele, mas não que se pense apenas n’Ele, uma vez que deu ao homem deveres a cumprir na Terra. Aquele que consome seu tempo na meditação e na contemplação não faz nada de meritório aos olhos de Deus, porque a dedicação de sua vida é toda pessoal e inútil para a humanidade, e Deus lhe pedirá contas do bem que não tiver feito. (Veja a questão 640.)


Prece


658 A prece é agradável a Deus?
– A prece é sempre agradável a Deus quando é do coração, porque a intenção é tudo e a prece do coração é preferível à que se pode ler, por mais bela que seja, se for lida mais com os lábios do que com o sentimento. A prece é agradável a Deus quando é dita com fé, fervor e sinceridade; mas não acrediteis que Ele seja tocado pela prece do homem fútil, orgulhoso e egoísta, a menos que signifique de sua parte um ato de sincero arrependimento e verdadeira humildade.

659 Qual é o caráter geral da prece?
– A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar n’Ele; é se aproximar d’Ele; é se colocar em comunicação com Ele. Pela prece, podem-se propor três coisas: louvar, pedir, agradecer.

660 A prece torna o homem melhor?
– Sim, quem ora com fervor e confiança é mais forte contra as tentações do mal, e Deus envia bons Espíritos para assisti-lo. É um socorro nunca recusado quando pedido com sinceridade.
660 a Por que algumas pessoas que oram muito têm, apesar disso, um caráter muito ruim, são invejosas, ciumentas, coléricas, não têm benevolência nem tolerância, podendo ser, algumas vezes, até mesmo viciosas?
– O essencial não é orar muito, mas orar bem. Essas pessoas acreditam que todo o mérito está no tamanho da prece e fecham os olhos para seus próprios defeitos. A prece é, para elas, uma ocupação, um emprego do tempo, não um estudo delas mesmas. Não é o remédio que é ineficaz, é a maneira como é empregado.

661 É válido orar a Deus para perdoar nossas faltas?
– Deus sabe discernir o bem e o mal; a prece não oculta as faltas. Aquele que a Deus pede perdão de suas faltas apenas o obtém ao mudar de conduta. As boas ações são as melhores preces, porque os atos valem mais do que as palavras.

662 É válido orar para outra pessoa?
– O Espírito daquele que ora age pela sua vontade de fazer o bem. Pela prece, atrai bons Espíritos que se associam ao bem que quer fazer.
  • Possuímos, em nós mesmos, pelo pensamento e pela vontade, um poder de ação que se estende além dos limites de nossa esfera corporal. A prece em favor de outras pessoas é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar os bons Espíritos para ajudar aquele por quem oramos, a fim de lhe sugerir bons pensamentos e lhe dar ao corpo e à alma a força de que tem necessidade. Mas a prece do coração é tudo, a dos lábios não é nada.
663 As preces que fazemos por nós mesmos podem mudar nossas provas e desviar-lhes o curso?
– Vossas provas estão nas mãos de Deus e há algumas que devem ser suportadas até o fim, mas Deus tem sempre em conta a resignação. A prece traz para junto de vós os bons Espíritos que dão a força de suportá-las com coragem e fazem com que pareçam menos duras. Já dissemos, a prece nunca é inútil quando é bem-feita, porque dá força àquele que ora, o que já é um grande resultado. Ajudai-vos e o céu vos ajudará, sabeis disso. Aliás, Deus não pode mudar a ordem da natureza à vontade de cada um, porque aquilo que é um grande mal sob o vosso ponto de vista mesquinho e vossa vida efêmera é, muitas vezes, um grande bem na ordem geral do universo. Além de tudo, quantos males há dos quais o homem é o próprio autor por sua imprevidência ou por suas faltas! É punido naquilo que errou. Entretanto, os pedidos justos são muitas vezes atendidos mais vezes do que supondes. Acreditais que Deus não vos tem escutado, porque não fez um milagre por vós, enquanto vos assiste por meios tão naturais que parecem o efeito do acaso ou da força das coisas; muitas vezes também, muitas vezes mesmo, Ele vos suscita o pensamento necessário para, por vós mesmos, sairdes do problema.

664 É útil orar pelos mortos e pelos Espíritos sofredores? Nesse caso, como nossas preces podem levar alívio e abreviar seus sofrimentos? Têm elas o poder de fazer abrandar a justiça de Deus?
– A prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus, mas a alma para quem se ora experimenta alívio, porque é um testemunho de interesse que se lhe dá, e porque o infeliz sempre encontra alívio quando almas caridosas se compadecem de suas dores. De outro lado, pela prece, motiva-se ao arrependimento e ao desejo de fazer o que é preciso para ser feliz; é nesse sentido que se pode abreviar sua pena, se por seu lado ajudar com sua boa vontade. Esse desejo de melhorar, animado pela prece, atrai para junto do Espírito sofredor Espíritos melhores que vêm esclarecê-lo, consolá-lo e lhe dar esperança. Jesus orava pelas ovelhas desgarradas e mostra, dessa maneira, que seríeis culpados de não fazer o mesmo por aqueles que têm necessidade das vossas preces.

665 O que pensar da opinião que rejeita a prece pelos mortos em razão de não estar recomendada no Evangelho?
– O Cristo disse: “Amai-vos uns aos outros”. Essa recomendação ensina que o homem deve empregar todos os meios possíveis para demonstrar afeição aos outros, sem entrar em detalhes sobre a maneira de atingir esse objetivo. Se é verdade que nada pode impedir o Criador de aplicar a justiça, da qual é a própria imagem, a todas as ações do Espírito, não é menos verdadeiro que a prece que Lhe dirigis em favor daquele que vos inspira afeição é um testemunho da lembrança que tendes dele, e apenas pode contribuir para aliviar seus sofrimentos e consolá-lo. A partir do momento em que ele sinta o menor arrependimento, é, então, socorrido; mas ele nunca ignora que uma alma simpática se ocupou dele e lhe deixa o doce pensamento que essa intercessão foi útil. Resulta disso, necessariamente, de sua parte, um sentimento de reconhecimento e afeição por aquele que lhe deu essa prova de amizade ou piedade. Dessa maneira, o amor que o Cristo recomendava aos homens apenas aproximou-os entre si; portanto, os dois obedeceram à lei de amor e de união de todos os seres, lei divina que deve conduzir à unidade, objetivo e finalidade do Espírito1.

666 Pode-se orar aos Espíritos?
– Pode-se orar aos bons Espíritos como mensageiros de Deus e executores de Seus desígnios; mas seu poder está na sua superioridade e depende sempre do Senhor de todas as coisas, pois sem sua permissão nada se faz; por isso, as preces que lhes dirigimos são somente eficazes se são agradáveis a Deus.


Politeísmo


667 Por que o politeísmo é uma das crenças mais antigas e divulgadas, apesar de ser falsa?
– O pensamento de um Deus único só poderia ser, para o homem,resultado do desenvolvimento de suas idéias. Incapaz, em sua ignorância, de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, agindo sobre a matéria, deu-lhe o homem as características da natureza corporal, ou seja, uma forma e uma figura. Desde então, tudo o que parecia ultrapassar as proporções da inteligência comum era uma divindade. Tudo que não compreendia devia ser obra de um poder sobrenatural, e daí estava a um passo de acreditar em tantos poderes diferentes quantos eram os efeitos que observava. Mas em todos os tempos houve homens esclarecidos que compreenderam que governar o mundo com essa multidão de poderes seria impossível sem uma direção superior e conceberam o pensamento de um Deus único.

668 Os fenômenos espíritas, produzidos em todos os tempos e conhecidos desde as primeiras épocas do mundo, não concorreram para fazer acreditar na pluralidade dos deuses?
– Sem dúvida, como os homens chamavam deus a tudo o que era sobre-humano, os Espíritos eram para eles deuses, e é por isso que, quando um homem se distinguia entre os outros pelas suas ações, seu gênio ou por um poder oculto, incompreendido pelos demais, tornavam-no um deus e lhe rendiam culto após a morte. (Veja a questão 603.)

  • A palavra deus, entre os antigos, tinha uma significação muito ampla. Não era como nos nossos dias, uma personificação do senhor da natureza; era uma qualificação genérica dada a todo ser colocado além das condições da humanidade. Como as manifestações espíritas lhes havia revelado a existência de seres incorpóreos que agiam como potências da natureza, eles os chamaram deuses, como nós os chamamos Espíritos. Uma simples questão de palavras, com a diferença de que em sua ignorância, mantida de propósito por aqueles que nisso tinham interesse, ergueram templos e altares muito lucrativos, enquanto, para nós, eles são simples criaturas, como nós, mais ou menos perfeitas, simplesmente sem o seu corpo terrestre. Se estudarmos com cuidado os diversos atributos das divindades pagãs, reconheceremos, sem dificuldade, todos aqueles atributos que os nossos Espíritos também têm em todos os graus da escala espírita; o estado físico nos mundos superiores; todas as propriedades do perispírito e o papel que desempenham nas coisas da Terra. O Cristianismo, ao esclarecer o mundo com sua luz divina, não veio destruir uma coisa que está na natureza, mas orientar a adoração para aquele a quem é devida. Quanto aos Espíritos, sua lembrança se perpetuou sob diversos nomes, conforme os povos, e suas manifestações, que nunca deixaram de se produzir, foram diversamente interpretadas e muitas vezes exploradas sob o manto do mistério; enquanto a religião viu fenômenos miraculosos, os incrédulos viram mentiras. Hoje, graças aos estudos mais sérios, feitos a plena luz, o Espiritismo livra-os das idéias supersticiosas que os obscureceram durante séculos e nos revela um dos maiores e mais sublimes princípios da natureza.
Sacrifícios


669 O hábito de sacrifícios humanos vem da mais alta Antiguidade. Como o homem pôde ser levado a acreditar que tais coisas pudessem ser agradáveis a Deus?
– Primeiramente, porque não compreendia Deus como fonte da bondade. Entre os povos primitivos, a matéria domina o espírito; eles se entregam aos instintos animais, é por isso que são geralmente cruéis, porque o seu sentido moral ainda não se desenvolveu. Além disso, os homens primitivos deveriam acreditar, naturalmente, que uma criatura viva tinha muito mais valor aos olhos de Deus do que um morto. Foi isso que os levou a sacrificar primeiro os animais e em seguida os homens, uma vez que, seguindo sua falsa crença, pensavam que o valor do sacrifício estava diretamente ligado à importância da vítima. Na vida material, se ofereceis um presente a alguém, o escolheis de um valor tanto maior quanto quereis demonstrar à pessoa mais amizade e consideração. Devia ocorrer o mesmo com os homens ignorantes em relação a Deus.
669 a Assim, os sacrifícios de animais teriam precedido os sacrifícios humanos?
– Sim. Não há dúvida.
669 b Então, de acordo com essa explicação, os sacrifícios humanos não teriam sua origem num sentimento de crueldade?
– Não, mas numa idéia errônea de ser agradável a Deus. Vede o que ocorreu com Abraão2. Depois, os homens abusaram ao sacrificar seus inimigos. Porém, Deus nunca exigiu sacrifícios de animais nem de homens; Ele não pode ser honrado com a destruição inútil de sua própria criatura.

670 Os sacrifícios humanos feitos com intenção piedosa algumas vezes puderam ser agradáveis a Deus?
– Não, nunca. Mas Deus julga a intenção. Os homens, sendo ignorantes, podiam acreditar que faziam um ato louvável ao sacrificar um de seus semelhantes. Nesse caso, Deus apenas levava em conta o pensamento e não o fato. Os homens, ao se melhorarem, reconheceriam seu erro e reprovariam esses sacrifícios, que não deviam alcançar compreensão no pensamento dos Espíritos esclarecidos; digo esclarecidos porque os Espíritos estavam, então, envolvidos por um véu material, mas, pelo livre-arbítrio, podiam ter uma percepção de sua origem e finalidade, e muitos já compreendiam, por intuição, o mal que faziam, embora continuassem a fazê-lo para satisfazer suas paixões.

671 Que devemos pensar das chamadas guerras santas? O sentimento que leva pessoas fanáticas a exterminarem o máximo que puderem dos que não compartilham de suas crenças para serem agradáveis a Deus parece ter a mesma origem que os estimulava antigamente a sacrificar os seus semelhantes?
– Eles estão envolvidos pela ação de maus Espíritos e ao guerrearem com seus semelhantes contrariam a vontade de Deus, que diz que se deve amar seu irmão como a si mesmo. Todas as religiões, ou melhor, todos os povos, adoraram um mesmo Deus, tenha um nome ou outro. Por que fazer uma guerra de extermínio apenas pelo fato de terem religiões diferentes ou não terem ainda alcançado o progresso dos povos esclarecidos? Os povos podem ser desculpados por não acreditarem na palavra daquele que era animado pelo Espírito de Deus e enviado por ele, principalmente quando não o viram e não foram testemunhas de seus atos; porém, como quereis que acreditem nessa palavra de paz, quando pretendeis impor essa palavra com a espada na mão? Devemos levar-lhes o esclarecimento e procurar fazer-lhes conhecer a doutrina do Salvador pela persuasão e pela doçura, não pela força e pelo sangue. Na maioria das vezes, não acreditais nas comunicações que temos com alguns mortais; como haveis de querer que estranhos acreditassem na vossa palavra, quando vossos atos desmentem a doutrina que pregais?

672 A oferenda dos frutos da terra, feita a Deus, tem mais mérito aos seus olhos do que o sacrifício de animais?
– Já vos respondi ao dizer que Deus julga a intenção e o fato tem pouca importância para ele. Seria evidentemente mais agradável oferecer a Deus frutos da terra do que o sangue das vítimas. Como já vos dissemos e repetimos sempre, a prece dita do fundo do coração é cem vezes mais agradável a Deus do que todas as oferendas que poderíeis lhe fazer. Repito que a intenção é tudo e o fato não é nada.

673 Não haveria um meio de tornar essas oferendas mais agradáveis a Deus se aliviassem as necessidades daqueles a quem falta o necessário; e, nesse caso, o sacrifício de animais, quando feito com um objetivo útil, não se tornaria meritório, embora fosse abusivo quando não servia para nada ou só tinha proveito apenas para as pessoas que não tinham necessidade de nada? Não haveria alguma coisa de verdadeiramente piedoso em consagrar aos pobres os primeiros frutos dos bens que Deus nos concedeu na Terra?
– Deus abençoa sempre aqueles que fazem o bem,e aliviar os pobres e aflitos é o melhor meio de honrá-Lo. Não quero dizer, entretanto, que Deus desaprova as cerimônias que fazeis por devoção, mas há muito dinheiro que poderia ser empregado mais utilmente e não é. Deus ama a simplicidade em todas as coisas. O homem que fundamenta sua crença nas exterioridades e não no coração é um Espírito com vistas estreitas. Julgai se Deus deve se importar mais com a forma do que com o conteúdo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Lei Natural

O Livro dos Espiritos
Parte Terceira - Leis Morais
Capitulo I - Lei Divina ou Lei Natural


Características da lei natural

614 O que se deve entender por lei natural?
– A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem; ela lhe indica o que deve ou não fazer, e ele é infeliz somente quando se afasta dela.

615 A lei de Deus é eterna?
– Eterna e imutável como o próprio Deus.

616 Deus ordenou aos homens, numa época, o que lhes proibiu em outra?
– Deus não pode se enganar; são os homens que são obrigados a mudar suas leis, porque são imperfeitos; mas as leis de Deus são perfeitas. A harmonia que rege o universo material e o universo moral é fundada sobre as leis que Deus estabeleceu para toda a eternidade.

617 Que objetivos abrangem as leis divinas? Elas se referem a outra coisa além da conduta moral?
– Todas as leis da natureza são leis divinas, uma vez que Deus é o criador de todas as coisas. O sábio estuda as leis da matéria, o homem de bem estuda as da alma e as pratica.

617 a É permitido ao homem se aprofundar em ambas?
– Sim, mas uma única existência não basta.
  • Que são, de fato, alguns anos para adquirir tudo o que constitui o ser perfeito, se considerarmos apenas a distância que separa o selvagem do homem civilizado? A mais longa existência possível de imaginar é insuficiente e com maior razão quando é abreviada, como acontece com muitos. Entre as leis divinas, umas regem o movimento e as relações da matéria bruta: são as leis físicas, cujo estudo é do domínio da ciência. Outras dizem respeito especialmente ao homem em si mesmo e em suas relações com Deus e com seus semelhantes. Elas compreendem as regras da vida do corpo como também as da vida da alma: são as leis morais.
618 As leis divinas são as mesmas para todos os mundos?
– A razão diz que devem ser apropriadas à natureza de cada mundo e proporcionais ao grau de adiantamento dos seres que os habitam.

Origem e conhecimento da lei natural

619 Deus deu a todos os homens meios de conhecer Sua lei?
– Todos podem conhecê-la, mas nem todos a compreendem; os que a compreendem melhor são os homens de bem e os que procuram pesquisá-la; entretanto, todos a compreenderão um dia, porque é preciso que o progresso se realize.
  • A justiça das diversas encarnações do homem é uma conseqüência desse princípio, uma vez que a cada nova existência sua inteligência é mais desenvolvida e compreende melhor o bem e o mal. Se tudo devesse se cumprir numa única existência, qual seria a sorte de tantos milhões de seres que morrem a cada dia no embrutecimento da selvageria ou nas trevas da ignorância, sem que tivesse dependido deles o esclarecimento? (Veja as questões 171 e 222.)
620 A alma, antes de sua união com o corpo, compreende a lei de Deus melhor que depois de sua encarnação?
– Compreende-a conforme o grau de perfeição que atingiu e conserva disso a lembrança intuitiva depois de sua união com o corpo; contudo, os maus instintos do homem o fazem esquecer-se dela.

621 Onde está escrita a lei de Deus?
– Na consciência.

621 Uma vez que o homem traz inscrita na consciência a lei de Deus, há necessidade que lhe seja revelada?
– Ele a esqueceu e a menosprezou; Deus quis que ela fosse lembrada.

622 Deus deu a alguns homens a missão de revelar Sua lei?
– Sim, certamente; em todos os tempos houve homens que receberam essa missão. São os Espíritos Superiores encarnados com o objetivo de fazer a humanidade avançar.

623 Aqueles que pretenderam instruir os homens na lei de Deus não estavam algumas vezes enganados e, freqüentemente, não fizeram com que se transviassem por meio de falsos princípios?
– Aqueles que não são inspirados por Deus e que, levados pela ambição, se disseram portadores de uma missão que não tinham, certamente puderam desviá-los. Entretanto, como eram de fato homens de gênio, mesmo no meio dos erros ensinados muitas vezes encontram-se grandes verdades.

624 Qual é o caráter do verdadeiro profeta?
– É um homem de bem, inspirado por Deus. Pode-se reconhecê-lo por suas palavras e ações. Deus não se serviria da boca de um mentiroso para ensinar a verdade.

625 Qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo?
– Jesus.
  • Jesus é para o homem o exemplo da perfeição moral a que pode pretender a humanidade na Terra. Deus nos oferece Jesus como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque era o próprio Espírito Divino e foi o ser mais puro que apareceu na Terra.
  • Se alguns daqueles que pretenderam instruir o homem na lei de Deus algumas vezes o desviaram, ensinando-lhe falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos muito materiais e por ter confundido as leis que regem as condições da vida da alma com as do corpo. Muitos anunciaram como leis divinas o que eram apenas leis humanas criadas para servir às paixões e dominar os homens.
626 As leis divinas e naturais só foram reveladas aos homens por Jesus e, antes dele, tinham conhecimento delas apenas pela intuição?
– Não dissemos que elas foram escritas em todos os lugares? Todos os homens que meditaram sobre a sabedoria puderam compreendê-las e ensiná-las desde os séculos mais remotos. Com os seus ensinamentos, mesmo incompletos, eles prepararam o terreno para receber a semente. Estando as leis divinas escritas no livro da natureza, o homem pôde conhecê-las quando as quis procurar. Eis por que os preceitos que consagram foram proclamados em todos os tempos pelos homens de bem e é por isso, também, que se encontram seus elementos na doutrina moral de todos os povos saídos da barbárie, embora incompletos ou alterados pela ignorância e pela superstição.

627 Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual é a utilidade do ensinamento dado pelos Espíritos? Terão a nos ensinar alguma coisa a mais?
– A palavra de Jesus era, muitas vezes, alegórica e em parábolas, porque falava de acordo com os tempos e os lugares. É preciso agora que a verdade seja inteligível para todo mundo. É preciso também explicar e desenvolver essas leis, uma vez que há tão poucas pessoas que as compreendem e ainda menos as que as praticam. Nossa missão é de abrir os olhos e os ouvidos para confundir os orgulhosos e desmascarar os hipócritas: aqueles que tomam as aparências da virtude e da religião para ocultarem suas baixezas. O ensinamento dos Espíritos deve ser claro e inequívoco, a fim de que ninguém possa alegar ignorância e cada um possa julgá-lo e apreciá-lo com a razão. Estamos encarregados de preparar o reino do bem anunciado por Jesus; por isso, não é correto que cada um possa interpretar a lei de Deus ao capricho de suas paixões nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.

628 Por que a verdade nem sempre foi colocada ao alcance de todos?
– É preciso que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: é preciso se habituar a ela pouco a pouco; de outro modo, fica-se deslumbrado.

Nunca ocorreu que Deus permitisse ao homem receber comunicações tão completas e instrutivas como as que lhe é dado receber hoje. Havia, como sabeis, na Antiguidade, alguns indivíduos que estavam em poder do que consideravam uma ciência sagrada e da qual faziam mistério aos que, de acordo com o seu julgamento, eram profanos. Deveis compreender, com o que conheceis agora das leis que regem os fenômenos das comunicações dos Espíritos, que esses indivíduos recebiam apenas algumas verdades esparsas no meio de um conjunto equívoco e, a maior parte do tempo, simbólico. Entretanto, não há para o homem estudioso nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, pois em tudo há os germes das grandes verdades que, ainda que pareçam contraditórias, esparsas que estão em meio a acessórios sem fundamento, são muito fáceis de entender, graças à chave que o Espiritismo dá para uma multidão de coisas que puderam, até aqui, parecer sem razão e que, hoje, a realidade vos demonstra de uma maneira irrecusável. Não deixeis, portanto, de tirar dessas matérias assuntos de estudo; elas são muito ricas e podem contribuir muito para a vossa instrução.

O bem e o mal

629 Que definição se pode dar à moral?
– A moral é a regra do bem proceder, ou seja, a que permite distinguir entre o bem e o mal. Ela é fundada sobre o cumprimento da lei de Deus. O homem procede bem quando faz tudo para o bem de todos porque, então, cumpre a lei de Deus.

630 Como se pode distinguir o bem e o mal?
– O bem é tudo o que está conforme a lei de Deus; o mal, tudo o que é contrário. Assim, fazer o bem é proceder conforme a lei de Deus; fazer o mal é infringir essa lei.

631 O homem tem, por si mesmo, meios de distinguir o bem do mal?
– Sim, quando crê em Deus e de fato quer saber porque Deus lhe deu a inteligência para distinguir um do outro.

632 O homem, sujeito ao erro como está, não pode se enganar no julgamento do bem e do mal e acreditar que faz o bem quando, na realidade, faz o mal?
– Jesus disse: “o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles”. Tudo está aí resumido. Vós não vos enganareis.

633 A regra do bem e do mal, que se poderia chamar de reciprocidade ou de solidariedade, não pode se aplicar à conduta pessoal do homem para consigo mesmo. Ele encontra na lei natural a regra dessa conduta e um guia seguro?
– Quando comeis em excesso, isso vos faz mal. Pois bem! Deus dá a medida daquilo que precisais. Quando a ultrapassais, sois punidos. Ocorre o mesmo com tudo. A lei natural traça para o homem o limite de suas necessidades; quando a ultrapassa, é punido pelo sofrimento. Se o homem escutasse, em todas as coisas, a voz que diz basta, evitaria a maior parte dos males de que acusa a natureza.

634 Por que o mal está na natureza das coisas? Eu falo do mal moral. Deus não poderia criar a humanidade em condições melhores?
– Já vos dissemos: os Espíritos foram criados simples e ignorantes. (Veja a questão 115.) Deus deixa ao homem a escolha do caminho. Tanto pior se tomar o mau: sua peregrinação será maior. Se não houvesse montanhas, o homem não compreenderia que se pode subir e descer, e, se não houvesse rochedos, não compreenderia que há corpos duros. É preciso que o Espírito adquira experiência e para isso é necessário que conheça o bem e o mal; é por essa razão que há a união do Espírito ao corpo. (Veja a questão 119.)

635 As diferentes posições sociais criam necessidades novas que não são as mesmas para todos os homens. A lei natural parece, assim, não ser uma regra uniforme?
– Essas diferentes posições estão na natureza da vida do homem e de conformidade com a lei do progresso. Isso não invalida a unidade da lei natural que se aplica a tudo.
  • As condições de existência do homem mudam de acordo com os tempos e os lugares, o que resulta para ele em necessidades diferentes e posições sociais apropriadas a essas necessidades. Porém, essa diversidade está na ordem das coisas, está conforme a lei de Deus e é una, quanto ao seu princípio. Cabe à razão distinguir as necessidades reais das necessidades artificiais ou convencionais.
636 O bem e o mal são absolutos para todos os homens?
– A lei de Deus é a mesma para todos; mas o mal depende principalmente da vontade que se tem de o praticar. O bem é sempre o bem e o mal é sempre o mal, qualquer que seja a posição do homem; a diferença está no grau de responsabilidade.

637 O selvagem que cede ao instinto e se nutre da carne humana é culpado?
– Eu disse que o mal depende da vontade. Pois bem! O homem é mais culpado à medida que se torna mais consciente daquilo que faz.
  •  As circunstâncias dão ao bem e ao mal uma gravidade relativa. O homem comete muitas faltas que por serem a conseqüência da posição em que a sociedade o colocou não são menos repreensíveis; mas a responsabilidade está na razão dos meios que tem de compreender o bem e o mal. É assim que o homem esclarecido que comete uma simples injustiça é mais culpado aos olhos de Deus do que o selvagem ignorante que é governado pelos instintos.
638 O mal parece, algumas vezes, ser conseqüência da força das coisas. Por exemplo, em alguns casos, a necessidade de destruição, mesmo dos nossos semelhantes. Pode-se dizer que haja infração à lei de Deus?
– Não deixa de ser o mal, ainda que necessário; porém, essa necessidade desaparece à medida que a alma se depura, ao passar de uma existência para outra; e então, o homem se torna mais culpado quando o comete, porque melhor o compreende.

639 O mal que se comete não é, muitas vezes, o resultado da posição em que nos colocaram outros homens? E, nesse caso, quais são os mais culpados?
– O mal recai sobre aquele que o causou. Porém, o homem que é conduzido ao mal pela posição que exerce é menos culpado do que aqueles que o causaram; contudo, cada um será punido, não somente pelo mal que tiver feito, como também pelo que tiver provocado.

640 Aquele que não faz o mal, mas que se aproveita do mal feito por um outro, é culpado da mesma forma?
– É como se o cometesse; ao tirar proveito participa dele. Talvez não pratique a ação; mas se, ao encontrar tudo feito, faz uso disso, é porque a aprova, e ele mesmo o faria se pudesse, ou se ousasse.

641 O desejo do mal é tão repreensível quanto o próprio mal?
– Depende; há virtude em resistir voluntariamente ao mal que se deseja praticar, especialmente quando se tem a possibilidade de satisfazer esse desejo; mas se é apenas por falta de ocasião, há culpa.

642 Basta não fazer o mal para ser agradável a Deus e assegurar um futuro melhor?
– Não. É preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada um responderá por todo o mal que resulte do bem que não tiver feito.

643 Há pessoas que, pela sua posição, não têm a possibilidade de fazer o bem?
– Não há ninguém que não possa fazer o bem; somente o egoísta nunca encontra ocasião. Bastam as relações sociais com outros homens para encontrar ocasião de fazer o bem, e cada dia de vida dá a oportunidade a quem não esteja cego pelo egoísmo; porque fazer o bem não é somente ser caridoso, é ser útil na medida de vosso poder todas as vezes que vossa ajuda se fizer necessária.

644 O meio onde alguns homens vivem não é para eles a causa primeira de muitos vícios e crimes?
– Sim, mas isso ainda é uma prova escolhida pelo Espírito no estado de liberdade. Ele quis se expor à tentação para ter o mérito da resistência.

645 Quando o homem está, de algum modo, mergulhado na atmosfera do vício, o mal não se torna um arrebatamento quase irresistível?
– Arrebatamento, sim; irresistível, não, porque, em meio à atmosfera do vício, encontrais, algumas vezes, grandes virtudes. São Espíritos que tiveram força de resistir e, ao mesmo tempo, a missão de exercer uma boa influência sobre seus semelhantes.

646 O mérito do bem depende de algumas condições ou há diferentes graus de mérito no bem?
– O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo; não há mérito em fazer o bem sem esforço e quando não custa nada. Deus tem mais em conta o pobre que partilha de seu único pedaço de pão do que o rico que dá apenas o supérfluo. Foi o que Jesus ensinou ao falar da esmola da viúva.

Divisão da lei natural

647 Toda a lei de Deus está contida no ensinamento de amor ao próximo ensinado por Jesus?
– Certamente esse ensinamento contém todos os deveres dos homens entre si; mas é preciso vos mostrar sua aplicação, senão deixareis de o cumprir como fazeis até hoje; aliás, a lei natural compreende todas as circunstâncias da vida e esse ensinamento é apenas uma parte da lei. Os homens necessitam de regras precisas. Os ensinamentos gerais e indefinidos, por serem muito vagos, possibilitam diversas interpretações.

648 Que pensais da divisão da lei natural em dez partes compreendendo as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação, destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a de justiça, amor e caridade?
– Essa divisão da lei de Deus em dez partes é a de Moisés e pode abranger todas as circunstâncias da vida, que é essencial. Podeis segui-la, embora ela nada tenha de absoluto, como não têm os outros sistemas de classificação que dependem do ponto de vista sob o qual se considere o que quer que seja. A última lei é a mais importante; é por ela que o homem pode avançar mais na vida espiritual, porque resume todas as outras.